HomeInterviewsAncestralidade e Encantamento: Filosofar desde a Diáspora Africana (Adilbênia Freire Machado)

Ancestralidade e Encantamento:
Filosofar desde a Diáspora Africana

Entrevista com Adilbênia Freire Machado

Language of the Interview: Portuguese
Conducted by Lara Hofner


Posted on

(English description below)

Na entrevista, Adilbênia Freire Machado desenvolve uma reflexão articulada sobre as filosofias africanas a partir da experiência afro-diaspórica no Brasil, enfatizando especialmente os conceitos de ancestralidade e encantamento como eixos ontológicos, éticos, políticos e estéticos. Falando desde uma diáspora forçada e violenta, a filósofa sublinha que as filosofias africanas no Brasil não são meras sobrevivências culturais, mas processos ativos de recriação, ressignificação e reexistência, profundamente constitutivos da formação histórica, social e simbólica do país.

A ancestralidade é compreendida para além de vínculos consanguíneos, como uma matriz de saberes, práticas e valores transmitidos sobretudo pela oralidade, que possibilita resistência histórica e continuidade existencial. Nesse sentido, Adilbênia insiste que não se trata de “estudar” filosofias africanas de modo distanciado, mas de filosofar a partir delas, reconhecendo-se como parte implicada dessas tradições vivas. O conceito de encantamento, por sua vez, é apresentado como uma força mobilizadora da vida: uma disposição crítica e poética diante do mundo que orienta a ação ética e política, sem idealizações ingênuas, mas comprometida com a potencialização da vida em sua pluralidade. Inspirando-se em pensadores como Nego Bispo e Eduardo Oliveira, Adilbênia caracteriza o encantamento como inseparável do conflito, da dor e da responsabilidade coletiva.

No campo do ensino da filosofia, a entrevistada apresenta uma crítica contundente aos currículos brasileiros, que ela descreve como eurocêntricos, falocêntricos e brancocêntricos, incapazes de formar sujeitos filosofantes situados em seus próprios contextos históricos e sociais. Segundo Adilbênia, trata-se de um ensino colonial que privilegia a reprodução de uma narrativa estreita da história da filosofia, em detrimento da pluralidade de origens e tradições do pensamento. Em resposta a esse quadro, ela defende a centralidade das filosofias africanas, indígenas e latino-americanas como pontos de partida fundamentais para a formação filosófica no Brasil.

Em sua prática docente, Adilbênia articula uma abordagem sistemática das filosofias africanas contemporâneas, incluindo uma historiografia crítica das correntes do debate — como a etnofilosofia, a filosofia da sagacidade, a filosofia política e ideológica, a filosofia profissional, a hermenêutica e a filosofia literária —, sem separar rigidamente filosofia, literatura e oralidade. Destaca ainda princípios estruturantes dessas filosofias, como ancestralidade, diversidade, tradição, inclusão, comunitarismo, relação com a natureza e uma concepção relacional de pessoa, em oposição ao individualismo moderno.

Um eixo central de seu trabalho é a valorização das vozes femininas e dos saberes ancestrais das mulheres. Embora não se dedique a uma teorização sistemática do gênero, Adilbênia entende o feminino como uma energia criadora e fundante da vida, historicamente silenciada nos discursos filosóficos. Sua opção metodológica e política é ampliar a presença de mulheres — africanas e afro-diaspóricas — na produção e circulação do pensamento, dialogando com autoras como Conceição Evaristo e denunciando as assimetrias estruturais que ainda marcam o campo.

Por fim, a entrevista evidencia a inseparabilidade entre filosofia, educação e engajamento social. A atuação de Adilbênia em contextos não acadêmicos — como escolas do campo e espaços vinculados ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra — é apresentada como parte constitutiva de seu filosofar. Para ela, o conhecimento acadêmico só faz sentido quando dialoga com o povo e retorna aos territórios de experiência que lhe dão origem. Essa filosofia “com o pé no chão”, comunitária e vivida, contrapõe-se ao desencantamento moderno e afirma a produção teórica como algo que emerge da experiência concreta, do pertencimento e da vida coletiva.

A entrevista se encerra com uma afirmação do caráter contracolonial das filosofias africanas, entendidas como práticas vivas de pensamento que desafiam narrativas hegemônicas, reconstroem sentidos de pertencimento e reafirmam a sacralidade do corpo, da natureza e da vida em comum.

English Summary


In this interview, Adilbênia Freire Machado develops an articulated reflection on African philosophies from the standpoint of the Afro-diasporic experience in Brazil, emphasizing the concepts of ancestrality and enchantment as ontological, ethical, political, and aesthetic axes. Speaking from a forced and violent diaspora, the philosopher stresses that African philosophies in Brazil are not mere cultural survivals, but active processes of re-creation, resignification, and re-existence, profoundly constitutive of the country’s historical, social, and symbolic formation.

Ancestrality is understood beyond consanguineous ties, as a matrix of knowledge, practices, and values transmitted above all through orality, enabling historical resistance and existential continuity. In this sense, Adilbênia insists that the task is not to “study” African philosophies from a detached position, but to philosophize from within them, recognizing oneself as implicated in these living traditions. The concept of enchantment, in turn, is presented as a life-mobilizing force: a critical and poetic disposition toward the world that guides ethical and political action without naïve idealization, committed to the potentiation of life in its plurality. Drawing on thinkers such as Nego Bispo and Eduardo Oliveira, Adilbênia characterizes enchantment as inseparable from conflict, pain, and collective responsibility.

In the field of philosophy teaching, the interviewee offers a sharp critique of Brazilian curricula, which she describes asEurocentric, phallocentric, and whiteness-centered, incapable of forming philosophical subjects situated in their own historical and social contexts. For Adilbênia, this is a colonial mode of teaching that privileges the reproduction of a narrow narrative of the history of philosophy, at the expense of the plurality of origins and traditions of thought. In response, she defends the centrality of African, Indigenous, and Latin American philosophies as fundamental starting points for philosophical education in Brazil.

In her teaching practice, Adilbênia articulates a systematic approach to contemporary African philosophies, including a critical historiography of the main currents in the debate—such as ethnophilosophy, sagacity philosophy, political/ideological philosophy, professional philosophy, hermeneutics, and literary philosophy—without strictly separating philosophy, literature, and orality. She also highlights structuring principles of these philosophies, such as ancestrality, diversity, tradition, inclusion, communitarianism, the relationship with nature, and a relational conception of personhood, as opposed to modern individualism.

A central axis of her work is the valorization of women’s voices and women’s ancestral knowledges. Although she does not pursue a systematic theorization of gender, Adilbênia understands the feminine as a creative and life-founding energy, historically silenced within philosophical discourses. Her methodological and political choice is to expand the presence of women—African and Afro-diasporic—in the production and circulation of thought, engaging authors such as Conceição Evaristo and denouncing the structural asymmetries that still mark the field.

Finally, the interview shows the inseparability of philosophy, education, and social engagement. Adilbênia’s work in non-academic contexts—such as rural schools and spaces connected to the Landless Workers’ Movement (MST)—is presented as constitutive of her philosophizing. For her, academic knowledge only makes sense when it dialogues with the people and returns to the territories of experience from which it emerges. This “feet-on-the-ground” philosophy—communitarian and lived—stands against modern disenchantment and affirms theoretical production as something that arises from concrete experience, belonging, and collective life.

The interview concludes by affirming the counter-colonial character of African philosophies, understood as living practices of thought that challenge hegemonic narratives, rebuild senses of belonging, and reaffirm the sacredness of the body, nature, and life-in-common.

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